17 de dezembro de 2013

ele nunca te bateu. nunca te deixou nódoas negras, arranhões ou marcas. ele é simpático e sorri para ti entre outros, é trabalhador e sinceramente não te falta nada, tens um frigorifico daqueles bem grandes cheio, roupas não tão baratas e bastantes sapatos, a tua televisão tem todos os canais, rara é a vez em que ele tem a conta pouco recheada. os outros veem que tens uma boa vida, das suas casas olham curiosos e até chegam a invejar-te porque tens tudo, porque ele dá-te tudo. muitas vezes até és considerada mal agradecida pois o teu único trabalho é cuidar da casa, e mesmo assim foste embora. achaste que merecias mais, agora vais ver como a vida é dura, dizem as vozes alheias.
ele é um homem às direitas.
o que ninguém sabe, nunca ninguém soube é que os murros, as chapadas, os pontapés não têm de ser necesariamente feitos com as mãos e os pés. há palavras que bem ditas ferem mais que flechas. a violência psicológica fere tanto ou mais como a física, é uma violência invisível aos olhos de quem não quer ver. mas não assim tanto.
nunca ninguém reparou que o teu sorriso começou a murchar, que deixaste de ter interesse por outras coisas, que vivias só para ele. deixaste a escola, nunca procuraste trabalho porque acreditaste sim que eras uma inútil, como ele sempre te disse. que deverias agradecer todos os dias aquele amor que ele te dava, pois a verdade é que nunca o mereceste. eras e sempre foste uma afortunada. vivias cansada, um cansaço físico, que te impedia de fazeres alguma coisa pelos teus sonhos, e tanto que sonhavas... sonhavas com um trabalho, com a correria de quem tem tanto para fazer. os momentos auge do teu dia eram aqueles em que ele chegava a casa, passavas o dia para esse momento, em que ele chegava cansado e descarregava em ti todos os seus problemas, que nunca sabias, mas achavas que o minimo que podias fazer era, de facto, ouvires aquelas palavras cruéis. 
mais ai veio alguém por quem valia a pena lutar. um fruto daquele amor que acreditavas ser o perfeito. e ela chegou e foi o melhor momento, e esqueceste-te de toda a dor, deixaste tudo para trás porque ela merecia que tentasses. que ao menos voltasses a tentar sorrir.
mas a tua cruz nunca te largou. continuaste a ser tida como uma inútil, uma pessoa vazia que não sabe nada. ele usava palavras que deveriam ser consideradas queridas como "princesa" para te denomear, mas não, aos olhos dele sempre tinhas sido uma princesinha sim, uma inútil que nunca tinha feito nada pela vida, que sempre tinha vivido como uma princesa, às custas dos outros. e tu davas por ti a imaginar como uma palavra tão bonita podia ser usada com tal maldade. 
nunca pensaste com 22 anos estar enredelhada nas teias da violência doméstica. chegas a desejar que ele te agrida fisicamente. pensas que mereces, que ele tem razão e que não vales mesmo nada. nem vale a pena lutares pelos teus sonhos porque nunca há-des conseguir. nunca pensaste viver uma vida perseguida pelas palavras cruéis que ainda ouves de noite quando deitas a cabeça no travesseiro. mesmo ele estando tão longe continua a asfixiar-te com as suas ameças, com os seus olhos aterradores que olham para ti como se te quisessem matar. chegas a desejar a sua morte. imaginas como seria tão mais fácil. e olhas para ti sem te conheceres, a desejar a morte de outra pessoa.. e choras porque ele implantou um pouco da sua maldade no teu coração. gostavas de lhe fazer frente, de te impores mas o teu medo impede-te de continuar. ainda tentas mas a voz não sai, ele é o agressor e tu sempre serás a sua vitima. por mais que tentes irá sempre ser assim.
serás sempre uma vitima. as pessoas não deixarão de ter pena de ti nunca, serás sempre a vítima de violência doméstica. continuarão a apontar isso como uma desculpa quando falhares, porque aos olhos dos outros estás "marcada", não chegarás ao sucesso porque um dia estiveste no fundo do poço. esquecem-se que ninguém é tão forte que nunca possa cair.

e tu não és tão fraca que nunca te possas reerguer.  

2 comentários:

Anónimo disse...

Fizeste-me chorar!
Também eu fui vitima de violência doméstica em todos os sentidos, até ao dia que ia morrendo.
É humilhante, dizem-nos que somos umas inúteis, feias, horríveis, que nunca ninguém vai querer olhar. E nós acreditamos, a nossa auto-estima deixa de existir, agradecemos por tudo o que temos. Afinal queixamo-nos do quê? Temos uma família, uma boa casa, carro, comida, roupa, e vergonha que os outros saibam que somos vitimas de violência. E o resto esquecemos.
A coragem de fugir só veio porque Deus colocou alguém no meu caminho que me deu a mão. Senão provavelmente já estava noutro sítio e os meus filhos órfãos de mãe.
Tens que ser muito forte!

Adriana disse...

Anónimo, ainda bem que gostou das minhas palavras. A violência doméstica, seja ela qual for, é daquelas coisas que pensamos sempre que nunca nos acontecerão. Afinal, quando é que o amor passa a violência? Quando é que se perdem as promessas, os beijos, as mãos dadas e os abraços? Os filhos são o melhor de tudo. São o tudo. E ainda hoje penso, como um homem tão mau me deu a melhor coisa que eu, um dia, poderia ter?
Beijos, força e acima de tudo os meus parabéns por ter conseguido seguir a sua vida.