24 de novembro de 2010

estás aqui, e não foi uma doença estúpida, triste, indesejada que te levou de mim. digo-o, e digo com toda a certeza. que me importa que digam que sou isto ou aquilo. não tenho saudades tuas. estúpida? não, não as tenho porque ficaste sempre cá e como posso eu ter saudades de alguém que está sempre comigo? 
estás cá e (re)vejo-te em cada cachorro que corre na relva ou no passeio, em cada roupa rasgada que encontro no chão, em cada latido que ouço, e em cada ganido que ouço és tu a pedir-me que te ajude. cada vez que vejo uma sombra debaixo da porta corro porque és tu que estás lá fora à espera que eu te deixe entrar e te dê uma boa tigela de leite quente. saltas-me para cima do sofá e enroscas-te nos meus pés, estive um longo tempo com um problema de pés frios, agora não tenho que me preocupar com isso. roubas-me a torrada que eu coloco em cima da mesa, eu irrito-me e digo-te que és mau, mas sabes bem que não é nada disso na realidade, és o melhor. divido contigo tantas refeições quando te colocas ao lado da minha cadeira e lanças gemidos e olhares irresistíveis. dou-te o meu colo e tu das-me o teu. dividimos uma espécie de mundo que só as pessoas com animais de estimação podem compreender.
alimentado não por bens materiais, alimentado pelos nossos olhares. pelas lágrimas que fazes correr só por eu me aperceber que pude viver um pouco desse mundo contigo. o melhor cão do mundo. que pude assistir ao espectáculo tremendo que é ver o que restou da tua cauda a abanar, e sou convencida sim, porque assisti a isso sozinha, pude partilhar esse momento contigo e agora partilha-lo com o mundo? impossível. não que não o queira, mas que palavras podem expressar o que o meu coração sentiu quando te viu pela primeira vez? 
e continuas cá, nesta manhã fria de Inverno, estás aqui enrolado no cobertor ao lado da minha cadeira. tu e a Mel. 
ironicamente e contraditoriamente ninguém te vê, só eu. mas será que existe algum mal em ver um pouco de ti em cada cão? 
Para o Marley,
o qual a quem eu nunca vou deixar de escrever

1 comentário:

inês zép disse...

está lindo, gostei tanto (: