8 de julho de 2010

we are free now.

Ela subiu aquelas intermináveis escadas que desenhavam o seu novo futuro, longínquo daquele que ela havia sonhado mas o que a vida lhe tinha oferecido. O medo era o seu novo melhor amigo. O medo de chegar aquele lugar abandonado pela vida… No entanto os seus passos não a levaram noutra direcção e lá foi ela, ciente do que lhe iria acontecer, sempre de olhos bem abertos para que não perdesse pitada. Sabia lá ela se um dia poderia contar dessa sua estadia, esperava ela que sim. Assim que ela entrou por aquelas portas imensas, tão grandes que dava para passar um gigante, sentiu-se como se tivesse sido atingida por um nevão. Pelas paredes caia uma tinta nada atractiva, um cinza deslavado escorria juntamente com a tristeza e o abandono daquele lugar, a escadaria era composta por uma pedra tão fria que quase se poderia compara-la ao seu coração, que havia gelado desde o momento em que se havia passado tal facto que a havia condenado eternamente. Há coisas que condenam as pessoas, que traçam marcos nos corações e nas vidas de tal forma que não há maneira que alguma vez tais feridas sararem. No fundo ela estava petrificada, devastada, aterrorizada, mas a maior dor que ela sentia não há palavras para explicar, só quem passa é que sabe, só ela tinha estado lá com ele, e só ela sabia o quanto tinha gritado o seu nome e o quanto queria ter ajudado e feito mais, muito mais. Queria poder ter agarrado a sua mão eternamente... Assim que subiu as escadas e os seus pés se aproximavam mais daquela certeza incerta ela olhava para trás cada vez com mais saudade! Mas não da vida que havia deixado para trás. Sempre fora o orgulho dos pais, a filha com as melhores notas, os melhores amigos e os namorados filhos de pais com nome, um exemplo a seguir, nunca havia quebrado as regras, e quando quebrou... parece que quebrou todas de uma vez. Em meses tornou-se a maior preocupação dos pais, abandonou os amigos, deixou de parte as famílias ricas e com nome, e tudo por um amor. Porque é assim, o amor faz tudo parecer insignificante, porque na realidade perante ele tudo o é. Mas esta não é uma história feliz, e no fim ela não ficou com um conto de fadas ou até mesmo com uma história cheia de melancolia e de saudade que pudesse contar aos netos, mas ficou com uma história de terror. Com um fantasma que amável ou não é um fantasma... e esses assustam sempre. Ali, naquela cela, culpada por um crime que ela não havia cometido, ela questionava-se o porquê daquilo estar a acontecer com ela, ela que sempre havia feito tudo de coração. Todos lhe haviam dito que sim, que o coração iria levá-la sempre aos caminhos certos, mas havia sido ele que a tinha conduzido até lá, estaria ele a ser correcto com ela? Ou será que até mesmo, ás vezes, os nossos corações nos traem?! Assim que ela chegou ao seu novo quarto a sua tristeza triplicou, era tão triste, era ali que ela iria sonhar com ele? Como é que ela iria ser capaz de igualar um anjo como ele, a uma escuridão daquelas. A tristeza daquele lugar partia os corações, quebrava os ossos e moía a carne, estilhaçava pedaços da sua alma em todas as direcções e ela negava-se a aceitar que estava a pagar por um crime que não havia cometido. Mas qual seria a diferença entre viver ali ou lá fora? Para ela os dois sítios iriam ser fotocópias depois da partida dele, o seu grande amor. Com lágrimas nos olhos ela disse uma última vez o seu nome... "Edward" e fechou os olhos, deixando aquele sítio e envolvendo-se no mundo dos sonhos.

Lá era tudo tão diferente, a tristeza e o cinza daquele sítio haviam sido expulsos, e ela sonhava sempre com ele. Lá não havia julgamentos e mesmo que todos continuassem a julgá-la ele continuava a sorrir-lhe e nos olhos dele ela via a verdade. Ali, ela encontrou-se com ele, naquele precipício, no mesmo em que ele havia saltado, o mesmo onde a tinham encontrado, no mesmo onde a tinham culpado. No mesmo onde a sua vida havia terminado. Porque com ele tinha terminado tudo, com ele havia sido enterrado o seu amor, o seu mundo e a sua vida. A terra agora calcava o amor deles para sempre. Numa fracção de segundos o espaço temporal mudou e ela agora via-se sozinha ali, ele já havia saltado, e ela dava-se conta do quanto o mundo agora pesava-lhe, de que a sua alegria de viver havia se evaporado e o vento a tinha levado, como ele, com as recordações de uma felicidade que outrora havia vivido entre eles os dois. Mas agora com um abismo a separá-los essa felicidade parecia não ter mais elasticidade e tinha-se rompido e agora o que restavam eram trapos e estilhaços dela. Ela queria poder te-la agarrado, mas ela fugia-lhe entre os dedos como se estivesse a querer dizer que sem ele não valia a pena, que a felicidade dela havia ter sempre o nome dele... Então ela saltou. Mesmo que já não o alcançasse, todos os poços têm fundo, tudo tem que ter um fim, e mais cedo ou mais tarde ela iria chegar até ele e aí poder de novo pegar com a sua mão na felicidade, ou seja, nele.


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