16 de março de 2010

finais (in)felizes



“-Chega!” disse ela, com as lágrimas nos olhos e as mãos contra o peito que firmemente seguravam um retrato que depressa caiu no chão e se desfez em mil cacos, tal e qual como estava o seu coração: despedaçado em mil cacos. Tão despedaçado que ela não sabia como havia de o recompor, tão magoado que ela não sabia que remédio lhe dar e tão cansado que nem mil anos seriam o suficiente para ele recuperar as forças anteriores. Ela estava tão magoada que sabia que nunca mais seria a mesma, que nunca mais se iria entregar da mesma maneira. Decidiu ir-se embora porque estava farta dos abusos, físicos e psicológicos, no entanto, não sabia quais eram os piores, se os que a feriam a pele e a faziam sangrar ou aqueles que perfuravam o seu coração e a sua mente. Cada um deles a havia matado aos poucos e poucos e agora tudo o que ela queria era renascer, tal e qual como uma Fénix. Queria renascer das cinzas que tinha restado daquele (des)amor, queria ver-se livre de todo aquele ódio que sentia. Queria poder arrancar a pele pois com ela iriam sair todas as impressões digitais que ele havia deixado nela, como pequenos bilhetes para o futuro com o intuito que ela nunca esquecesse o passado e que ele, o seu agressor, havia feito parte dele. Ele que tinha entrado na sua vida como um furacão e que deixou buracos no caminho, buracos incontornáveis e que jamais iriam ser tapados porque não haveria neste mundo alcatrão suficiente que os preenchesse. Ela queria ter podido dizer “não” mais cedo, queria ter chegado ao seu limite mais cedo, queria ter fechado a porta na cara dele e ter tido coragem para lhe fazer frente, queria ter podido levantar a cabeça mais cedo, no entanto, ela sempre seguiu o caminho mais fácil e baixou a cabeça até ao chão, foi sempre tão fácil ter essa atitude ate ao dia que ela decidiu levantar a cabeça e enfrentar o seu maior medo: ele, o seu agressor.
Por momentos ele já a havia feito feliz, mas isso eram tempos que já lá iam, e nem ela se lembrava mais deles, ate porque os maus momentos pelos quais ele a fizera passar “apagaram” tudo de bom que poderia haver entre eles os dois, o que ela vivia já não era uma história de amor, mas sim uma história de terror. Da qual ela queria sair todos os dias mas que cada vez era mais envolvente e mais difícil… mas no fim de contas, ela teve a força necessária e deixou de ser: ela, a vítima. Passou a ser “ela, a corajosa”!
Descolou os olhos do chão e pôde por fim ver as estrelas e toda a vida que ela estava a perder. E com tudo isto ela aprendeu que nós temos sempre mais força do que aquilo que imaginamos e que conseguimos sair das situações mais obscuras, e por mais medo que tenhamos um cobarde será sempre um cobarde, e só deixará de o ser quando for enfrentado. Ela abriu mão de toda a dor que vivia, pintou a sua história com as cores que quis, renunciou todo aquele amor angustiante em que vivia.
“Uma chapada nunca é resposta ao amor”, um soco numa vem carregado de paixão, o amor nunca pode ser causador de violência, até porque ele é o que de melhor temos a dar e não o pior.

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